sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A VIRTUOSA SAGA DO GURI DE MERDA




A VIRTUOSA SAGA DO GURI DE MERDA

Guri: substantivo masculino originário da cultura gaúcha que nomina jovem de tenra idade até a fase adulta e, dependendo do humor, dali em diante. Seu emprego é dúbio, pois tanto pode ser entendido como um atributo positivo, quanto negativo, pejorativo, guri/personagem ao qual me reporto a seguir.

Pai: desconhecido

Mãe: ausente, não se sabe onde anda, do tipo “não to nem aí”.

Mãe de fato, mas não de direito: a avó, por parte da mãe, é claro.

Amiguinhos: a trupe da rua reunida tendo como maior diversão quebrar placas de sinalização, estourar lâmpadas e pichar muros com qualquer coisa.

Escola: posição indefinida (não de vagabundagem) na vida escolar, provavelmente situada entre a 3ª e a 5ª série do ensino fundamental.

Lazer preferido: derrubar latas de lixo nas vias públicas, matar passarinhos e todos os tipos de bichos vivos ao alcance, com especial foco nos “não domésticos”.

Vivendo com a avó, nas efêmeras passagens em casa, logo descobriu que ela guardava algum dinheiro da pensão vitalícia que recebia todo santo mês na condição de “filha solteira de general de brigada”, regalito previdenciário divino que só existe no Brasil e alguns poucos países hiper-desenvolvidos, aqueles nos quais não há miséria, pobreza, analfabetismo, entre outras mazelas nacionais.

Certo dia afanou um bocado do cofrinho da vovó e atribuiu o furto à empregada que, por sua vez, foi pro olho da rua amargar o desemprego total, já que fruía de um bico precário com a qual alimentava mais três crianças num barraco distante. Não é preciso dizer que nosso guri e sua família são brancos, e a empregada e sua família são negros.

Seu primeiro “investimento” na vida foi um lote de papelotes que generosamente distribuiu entre os amiguinhos, virando líder instantâneo dos mesmos. A trupe passou a infernizar todo o bairro dia e noite, cena comum na maioria das cidades já de longa data. O “som” e o ronco dos motores emolduravam a cena.

Aos 15 aninhos estuprou uma menina de 11 aninhos que, por azar, cruzou diante de seus olhos no carnaval. Oh maldito carnaval !!! Ato contínuo, consolidou ainda mais sua liderança sobre a trupe do bairro, cada vez mais mergulhada em drogas, arruaças e maldades de toda sorte. E, em meio a isso tudo, até freqüentava a escola dia sim, dia não, dependendo do humor e das ressacas.

Aos 16 aninhos, dirigindo um carro roubado para ir à balada, atropelou em altíssima velocidade uma família inteira que aguardava paciente em um ponto de ônibus o embarque que não chegava. Embarcaram para o céu sem aviso prévio. Restaram em terra dois sobreviventes: um menino e uma menina órfãos de pai, mãe e tia, também morta no acidente.

Liberado pela polícia um dia depois da chacina automobilística, e recomposto da bebedeira, teve que “prestar serviços comunitários” para os quais se safou, pois não havia nada a fazer objetivamente na comunidade, carente de ONGs filantrópicas, além de não haver quem cobraria dele a pena do “trabalho comunitário”.

Saindo impune com a morte de três pessoas, nosso guri mui esperto logo aprendeu que, com algum “jeitinho” maneiro, boas conexões em alguns “pontos sociais”, poderia subir na vida caso a sorte viesse a sorrir para ele.

Depois de longa e imprecisa jornada escolar, virtualmente conclusa, nosso guri convenceu a angélica vovó a lhe emprestar uma grana com a qual compraria um gabarito de vestibular no qual passaria, certamente, entre os primeiros lugares.

Nosso guri, agora universitário cursando direito em uma instituição pública e gratuita, pouco freqüentava salas de aula, a ponto de um belo dia, ao conversar com um sujeito mais idoso no bar da faculdade, descobriu que ele era, em verdade, um dos seus desconhecidos professores. A descoberta lhe gerou algumas folgas a mais, para sua satisfação intelectual e infinito gozo carnal.

Idas e vindas, jeitinho aqui, favor ali, finalmente bota a mão no canudo por força da ajuda que recebeu de alguns professores, decididos a se livrar dele o quanto antes, sob o mot “abrir uma vaga para alguém mais interessado nos estudos”.

Com o diploma de direito na mão, mais uma vez emprestou uma graninha da angélica vovó, com a qual adquiriu um gabarito da prova da OAB, porta que lhe abriria uma brilhante carreira jurídica, “sedutora” em todos os sentidos.

Na medida em que se inteirava do reino jurídico, nosso esperto guri já com mais de 20 anos, decorava algum juridiquês com o qual conseguia seduzir de meritis não só seus pares, jurisconsultos, meirinhos e escrivães, mas até mesmo atrair alguns incautos clientes, causas que, invariavelmente, perdia para a outra parte.

Descobriu que a língua é um instrumento de sedução e dominação sutil e muito eficiente, tanto quanto o dinheiro, onde reside o periculum in mora.

Fumus boni júris, contra legem, data vênia, habeas corpus, inaudita altera parts, entre incontáveis expressões oriundas de insondáveis pergaminhos seculares, todos eivados de alta circunspecção, impoluta seriedade, no mais elevado rito formal e de elevada prosopopéia, meticulosamente garimpada no enferrujado cânone greco-romano.

Suas sentenças, mais se assemelhavam a obras primas da literatura clássica, invariavelmente permeadas por expressões que se valiam do mais elevado vernáculo da língua portuguesa, tais como estas:

  
Chegando aos 30 anos de idade, nosso guri já tinha amealhado um sem numero de contatos muito quentes no judiciário por meio de sua onipresença nas festinhas da corte, baladas regadas a todo tipo de comes e bebes insuspeitos, todos de origem comprovada e com selinho de garantia. Nada de canapé mofado e uísque do Paraguai, coisa da “escumalha” social que tanto odiava.


O “pulo do gato” viria quando caiu na graça da filha de um desembargador, escada que lhe deu acesso rápido ao próprio, e com ele aprendeu o caminho mais curto para chegar a juiz de direito, renda fixa muito boa, mas tendo que abrir mão de certas liberdades, embora conservando seu modo de vida bem disfarçado. Fazer o quê? Alguma coisa teria que ceder em troca das regalias daquele “ingrato ofício”.

Concurso aberto, com sólidos “contatos de dentro”, obtidos com o seu virtual sogro, passaria com nota de distinção dentre um seleto grupo de dois concorrentes. Não passou em primeiro lugar, mas em 2º e, assim que se abriu uma vaga no interior, lá estava nosso recém nomeado juiz finalmente no exercício do cargo.

Cidadezinha de interior, mais parecida com algum bairro de periferia de grande cidade, na qual manda o triunvirato Prefeito, padre e o juiz, ambiente no qual os vereadores locais são menos “valiosos” que os despachantes de trânsito.

Entre todo tipo de processos, indenizações, sopapos e “crimes menores”, nosso guri sentenciou outro guri, este com seus 15 aninhos, condenando-o pela morte de cinco pessoas em acidente de trânsito, bêbado ao volante, a alguns “trabalhos voluntários”, assim como ele próprio havia sido sentenciado vinte anos antes. Como de praxe, nada aconteceu com o cumprimento da pena por parte do nosso guri de 15 anos, assassino (bêbado) de cinco pessoas.

Logo depois, sentenciou um sujeito por difamação que teria feito a um empresário local envolvido com notórias falcatruas na Prefeitura comprando emendas de zoneamento urbano de vereadores, a pagar R$ 100.000,00, cem mil reais, isto mesmo. O empresário era presidente do sindicato das empresas da construção civil.
 
Temeroso que uma apelação lhe impingisse pena ainda maior, o denunciante do empresário, cidadão honesto e trabalhador, SMJ, teve que vender sua propriedade que havia adquirido com muito suor e trabalho para pagar à vítima sua dívida pecuniária pela condenação. Depois de paga, o empresário dividiu com nosso guri a quantia e ambos ficaram ainda mais amigos, a partir de então parceiros diários de tênis no high-club social da cidade.

Banhos de piscina e festinhas sociais também viraram rotina na adorável e mansa vidinha do nosso guri, sempre acompanhado de sua cortês e vigilante esposa, aquela filha do desembargador, agora já aposentado.

Capítulo à parte, sua esposa era nobre contribuinte em todas as quermesses e atividades filantrópicas em toda a região, sempre portando os últimos cortes Armani, ou outras grifes importadas, espertamente compradas nos saldões promocionais, um vício insanável.


Também fazia parte do fausto “marketing social” da nossa dupla high socieity, participar de rotineiros cruzeiros, alguns dos quais dançando “Amada amante”, na voz de Roberto Carlos do qual, sempre recebia uma perfumada rosa vermelha.

Conexões granjeadas no uísque depois dos jogos de tênis, colocaram nosso guri em contato direto com o partido do então governador. Logo seria nomeado para desembargador em troca do compromisso de procrastinar todas as ações judiciais que implicavam possíveis penas a sua gangue. Não eram poucas.

O governador e a cúpula do seu partido, por sua vez, consolidaram com esse “golpe de mestre”, a maioria na cúpula do Judiciário Estadual, cenário que proporcionaria a ele a maior tranqüilidade para tocar adiante o seu probo governo.

Da mesma forma, no Legislativo, compondo folgada maioria por obra de nomeações no 1º, 2º e 3º escalões, o governador jamais enfrentaria alguma CPI ao longo da sua dinâmica e “revolucionária gestão”. No aperto, chamava algum desembargador que havia nomeado para dar um puxão de orelha no deputado insubmisso.

A doce vovó do nosso guri, a essas alturas já com 90 anos, continuou recebendo sua pensão vitalícia de “filha solteira de general”.

Nosso guri, assassino de três pessoas, bêbado ao volante, embora nunca tenha estudado qualquer coisa, tenha comprado três diplomas para passar no vestibular, na faculdade e na OAB, logo se aposentou como desembargador no topo da carreira, e hoje vive bem folgado numa vitoriana mansão no litoral catarinense, encravada numa encosta de morro íngreme em meio à Mata Atlântica, com vista paradisíaca, rodeado de bichinhos selvagens, um privilégio só para poucos deuses.

Agora aos 55 anos de idade, receberá todo mês modestos R$ 40.000,00 limpinhos. Pouco, é verdade, para sustentar tamanhos compromissos que o cercam, pelo resto de sua vida, cuja longevidade é estimada em cerca de 90 anos, como sua vovó.

Detalhe: todo ano compra uma Mercedes zerinho e freqüenta o cruzeiro do Roberto.

E para “passar o tempo, toda tarde, chova faça sol, joga bingo e dominó na praça central da cidade, quase incógnito misturado ao “povo” que tanto ama e para o qual tantos serviços prestou durante sua intensa e profícua vida profissional.

E assim termina “a virtuosa saga do guri de merda”.

Florianópolis, fevereiro de 2012
Gert Schinke

Obs: Todos os personagens dessa história são rigorosamente fictícios e não estabelecem qualquer relação com a vida social brasileira. Trata-se, pois, de um mero conto de ficção.



terça-feira, 13 de setembro de 2011

S O F T W A R E A B E R T O



      S O F T W A R E    A B E R T O


AÇÃO - EXEC

QUANTO CUSTA

QUANTO GANHA
Juntar os parceiros para registrar a firma, ENTER
Mixaria – trago barato - cachaça

Registrar a firma na Junta Comercial, ENTER
Mixaria – papelada básica

Contratar advogado criminal e contador em “regime de risco”, ENTER
Mixaria – papelada básica

Procurar “padinho parlamentar” oferecendo aporte na próxima campanha, ENTER
Mixaria – bares ou restaurantes

Procurar Secretários Municipais, Estaduais e Ministros oferecendo aporte para a próxima campanha deles, ENTER
Mixaria – bares ou restaurantes

Concorrer em licitação milionária com preço bem abaixo do mercado, ENTER
Mixaria – papelada básica

Subcontratar empresas para somente dar início à obra ou serviços, ENTER
10% do valor inicial – em cheques pré-datados

Fazer aditivo ao contrato para atualização de preços e ajustes na obra ou serviços, contando com o apoio dos parlamentares e secretários envolvidos, ENTER
Mixaria – papelada, propinas,presentes, promessa de apoio futuro à campanha
200% de acréscimo em cima do valor inicial do contrato
Fazer seu advogado falar com um desembargador “amigo” prevenindo eventuais problemas judiciais, ENTER
Mixaria – restaurante chique

Declarar falência da sua empresa deixando a obra ou serviços inconclusos, ENTER
Mixaria – papelada e dispensa dos empregados

Depositar a grana recebida do inicial e do aditivo em vários paraísos fiscais, ENTER
Mixaria – eventual turismo ao exterior

Pagar os sócios e parlamentares, ENTER
Até o teto de 50% do valor inicial do contrato

Enviar presentes ao juiz e desembargador, ENTER
Mixaria – cruzeiro marítimo ou obra de arte

Repatriar o dinheiro passando por várias contas e Caixas 2 de parlamentares com promessa de futuro apoio para suas campanhas eleitorais, ENTER
Mixaria – papelada, propinas para fiscais da receita, restaurantes e custos bancários

Investir “legalmente” em imóvel ou participação acionária na estatal que apresentar os maiores ganhos na bolsa – Petrobrás ou BB, ENTER
Tudo o que sobrou da empreitada
Dividendos fartos até o fim da vida
Candidatar-se na próxima eleição para parlamentar no Congresso, deputado ou senador, ENTER
Coletar dinheiro de outros empresários, agora para o seu Caixa 2
Prestígio, influência, poder e conexões
Eleger-se deputado federal ou senador, mesmo que suplente, ENTER
Caixa 2, sem qualquer custo para você
Impunidade garantida
Reeleger-se indefinidamente, mesmo que suplente, ENTER
Caixa 2, sem qualquer custo para você
Fica milionário garantido
Morrer rodeado de correligionários, ex-sócios, credores e beneficiários, ESC
Mixaria – enterro digno de príncipe
Nome de avenida na cidade


quarta-feira, 1 de junho de 2011


 

Gert Schinke – junho de 2011

UM SONHO PSICOGRAFADO

Atentos à necessidade de atualizar o Código Florestal Brasileiro, altos dirigentes dos partidos de esquerda iniciaram um profícuo debate assim que Lula sentou na cadeira de presidente. Depois de dezenas de debates em todo Brasil, ouvidos todos os setores envolvidos, parlamentares da famosa “Frente Popular Em Defesa Da Natureza do Brasil” produziram um relatório quase irretocável, introduzindo inúmeras melhorias que se fizeram necessárias ao velho texto de 1965, gerado em plena ditadura militar. Todas, porém, mais restritivas no que dizia respeito à defesa da natureza e, ao mesmo tempo, garantindo enormes avanços ao homem do campo, especialmente para a agricultura familiar. Todo esse fervoroso empenho que envolveu quase todos os partidos, mas especialmente os partidos do campo de esquerda capitaneados pelo PT que elegeu o presidente operário, trouxeram uma enorme esperança à sociedade brasileira e internacional, pois finalmente algo de positivo acontecia em meio ao tenebroso cenário de constante devastação das florestas, mangues, cerrados e tudo mais ao alcance das implacáveis moto-serras, tratores com os correntões e o fogo de costume.

Lula, que já havia dado umas trinta voltas ao mundo ao longo do primeiro mandato com o Aerolula, com o que viu lá fora parecia convicto de que o país deveria preservar suas maiores qualidades e riquezas para seu próprio povo, e falava exaltado com o dedo em riste e verve povão na defesa dos bichos de todos tipos, lagartixas, sapinhos, especialmente os bagres que dizia amar, granjeando a simpatia da meninada. Começou seu segundo mandato marcando-o claramente como “verde” em tudo. Acabou com a impunidade no campo e das quadrilhas de bandidos e corruptos nas cidades reformando o Código de Processo Penal; criou centenas de novas Unidades de Conservação Federais por todo país e implantou o SNUC de fato e de direito; fez a sonhada reforma agrária dando total assistência aos assentamentos com agroecologia de primeira; fez uma vasta reforma política que, entre outras coisas, acabou com o financiamento privado de campanhas eleitorais; acabou com o programa nuclear brasileiro e começou a desmontar Angra I e II. Na esfera internacional não deixou por menos: brigou por um acordo mundial para diminuir o aquecimento global e salvar as florestas, entre outras eco-bandeiras importantes, o que lhe deu ainda mais prestígio e fama como mandatário. No meio do caminho sobrou para a dupla “SS”: O Sarney parou no Amapá em prisão domiciliar e o Suplicy virou Presidente do Congresso Nacional. E o melhor de tudo parecia ser o desempenho da economia: o país crescia com fértil avanço no IDH, muita comida orgânica na barriga do povo, energia sobrando até para vender a toda América Latina, inclusive abrindo mão da construção de Belo Monte e de outras grandes hidrelétricas na Amazônia.

O relatório final do anteprojeto vinha assinado por um antigo militante de esquerda que acumulava uma longa história na defesa das transformações sociais, lutou contra a ditadura militar e esmerou-se em defender, ao longo do processo de discussão, uma visão ecológica afinada como a que a sociedade e o mundo todo clamavam. Quando, finalmente, o projeto entrou em votação no Congresso, o país respirava o ar da vitória do bom senso, de uma virtual harmonização da grande economia com a mãe-natureza, de uma proposta que pela primeira vez, depois de décadas de desenvolvimentismo eco-rapinador colonial e entreguista, conseguiria colocar o Brasil no rumo de outro modelo de desenvolvimento, aquele pelo qual tanto se batiam as forças de esquerda no país depois da era do “progresso a todo custo” da ditadura – do Brasil do “ame ou deixe-o”. O texto marcava uma clara mudança de atitude de governo, agora voltado para oferecer um futuro melhor para as futuras gerações.

No dia da votação, o Brasil parou para acompanhar em Brasília o que seria uma acachapante vitória das esquerdas sobre o, até então, trator dos grandes grupos econômicos do agronegócio abraçado com a grande indústria química multinacional, de equipamentos pesados, do transporte rodoviário, do petróleo, das máfias das commodities, dos atacadistas de alimentos. As galerias da Câmara dos Deputados se encheram de gente de todo país, exalando alegria por todos os lados, gritando cadenciadas palavras de ordem em torno da defesa da natureza, vestidos de tudo o que é tipo de cores, um arco-íris que juntava desde índios até pequenos agricultores familiares, ambientalistas de todos os matizes, intelectuais, artistas e lutadores sociais que se solidarizavam com a proposta que faria o país enveredar na “eco-modernidade” tão sonhada com a chegada do século XXI. Já na antevéspera da votação, as praças estavam cheias de gente ostentando bandeiras multicoloridas, mas com claro predomínio de tons vermelhos e amarelos característica cenográfica das grandes manifestações populares que levaram Lula e o PT ao poder. No dia da decisão o país parou para acompanhar tudo no melhor estilo “Brasil em final de copa do mundo”.

O PT, partido do presidente e dono da maior bancada no Congresso, havia se empenhado fervorosamente há meses para aglutinar a base aliada e produzir, junto com o PV, PCdoB, a banda progressista do PMDB, PSB, PSOL e outros partidos pequenos, uma articulação política imbatível para que a votação garantisse uma vitória tranqüila sobre a contraproposta ruralista capitaneada pelas forças de direita, tendo à frente o DEM, PSDB, PP, a banda podre do PMDB, partidos de aluguel, bloco sob a condução da reacionária CNA e outras entidades ligadas ao agronegócio exportador. Uma das figuras que se destacou na articulação política no Congresso foi o Ministro da Casa Civil, Palocci, que, embora tardiamente convertido para as causas ecológicas do seu eco-guru Lula, bateu o punho na mesa e nada cedeu à chantagem dos partidos da base aliada sobre o governo na adjeta barganha por cargos na esplanada e companhias estatais Brasil afora. “Acabou a mamadeira”, dizia. Em Campinas já era aclamado como herói e ganhava até nome de praça em vida. Surgia o “eco-palocismo”.

Apurada a votação do projeto de lei, fez-se o resultado já esperado sob a égide de um governo de esquerda, transformador, de caráter progressista, e identificado com o clamor do povo mobilizado na rua em torno dos avanços populares para construir um país melhor para as futuras gerações. O presidente da Câmara, ex-sindicalista, anunciou eufórico o resultado com voz embargada: 351 votos a favor da proposta do Código Florestal ecológico, 117 votos contrários da direita ruralista, e alguns poucos em branco. Deu 3 pra 1: três para a natureza, um para o negócio da moto-serra e do trator. O plenário veio abaixo e as galerias ovacionaram os parlamentares em meio a palavras de ordem, abraços e choros sinceros. Nunca se viu, passados muitos anos “nesse país”, como costumava dizer o presidente que a tudo assistia atentamente pela televisão no Alvorada, tanta comemoração quanto naquela noite. Era a pura expressão da felicidade geral tão almejada por uma geração que por várias décadas lutou contra a ditadura, contra o atraso cultural e político, a escravidão no campo e na cidade, a exploração do povo trabalhador, o preconceito, o cerceamento à liberdade de expressão, o cenário da terra arrasada por todo lado. Lá estava eu também com o lenço junto aos olhos tentando registrar na memória aqueles mágicos momentos. Inesquecíveis momentos.

PRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRRIIIIIIIIIMMMM....

Quando acordei, recobrando a consciência, deparei-me com o PESADELO da vida real.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

MAIS ATUAL IMPOSSÍVEL...


Depois da Lei de Gerson, agora temos a Emenda do Sarney - Sanctum Sacrificium !


E nesta manhã chuvosa, durante o programa da CBN, o tal Marcos Soares, promotor do evento da Skol, soltou a frase que ilustra maravilhosamente bem a dita emenda: " Esses gatos pingados que não querem o show do Ben Harper no Campeche, estão pensando só em seu próprio umbigo. Nós, da Skol, é que estamos pensando no bem da população de Florianópolis" ( ??!!!!)


Leia a Abobrinha Ekoxata 01-11 e entenda que é a Emenda do Sarney!!!!

‘S A C R I F Í C I O’ é meu ofício.




Foi a palavra abusada, de tão usada, pelo nobre Senador José Sarney, ao discursar na tribuna do Senado quando de sua posse como presidente daquela ilibada casa legislativa. Pela quarta vez, feito único, que com meros 55 anos de casa, superou Rui Barbosa. Pode?

Como muito(a)s já sabem, ou desconfiam, eu defendo de longa data a simples extinção do Senado Federal, na perspectiva de um Congresso Unicameral, por diversos motivos. Fiz coro com nosso Plínio (este sim, sacrificou-se na função de candidato presidencial do PSOL) nas eleições do ano passado, quando fui candidato à Deputado Federal pelo PSOL-SC, e tive a nítida sensação de que só a polêmica que a proposta gerou já lhe garantiu o mérito de informar e politizar um pouco o(a)s brasileiro(a)s sobre o que considero um verdadeiro “rebotalho da monarquia”, excrescência institucional num Brasil de hoje clama por acabar com as mordomias e penduricalhos legislativos, assim como em todas as esferas do Estado, ente colonizado por gangues e despachantes de empresas.

O Senado é o “colchão de molas” institucional perfeito para arrefecer as demandas que provindas da Câmara, se apresentam intoleráveis ao poder da elite dominante brasileira e consolida na opinião pública a visão de que existe efetiva democracia no país. De fato, o que existe é um circo de faz de conta democrático, com representações deformadas e todo tipo de anomalias que, ao longo de décadas, se consolidaram na “inevitabilidade” dos fatos consumados, para não dizer “direitos adquiridos”. Eleger-se Deputado ou Senador no Brasil é ganhar na loteria, é mudar de vida rumo ao enriquecimento rápido.
“O senador José Sarney (PMDB-AP) foi reeleito ontem com apoio de 70 dos 81 integrantes da Casa para sua quarta gestão na presidência do Senado. No discurso de posse, repetiu que marcha mais uma vez para o "sacrifício pessoal". Sarney venceu o único adversário na disputa, Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), escolhido por oito parlamentares. Um senador optou por anular o voto e dois votaram em branco.” Jornal O Estado de São Paulo, 02.02.11 (vive sob censura há 550 dias)
Como o PSOL não tem uma posição oficial sobre a questão do bicameralismo ou unicameralismo do legislativo federal, é próprio do funcionamento de um partido democrático, haver defesa de propostas que nem sempre estão na ordem do dia, para que chegue o momento em que seja decidido sobre o assunto. E este, creio eu, chegará, mais cedo ou mais tarde. O que eu gostaria de ver com o mandato de um Senador psolista é um ferrenho e obstinado combate às patifarias reiteradamente denunciadas nos últimos anos no Senado, algumas das quais, senão em sua totalidade, são usufruídas pelos próprios Senadores que às denunciam, sob o argumento de que “há regras e, portanto, temos que cumpri-las”. Assim, dúzias de cargos de confiança, jatinho pra cá, jatinho pra lá, décimo quarto, décimo quinto, e assim por diante. Fosse eu algum dia, por circunstâncias inusitadas e imprevistas, um Senador, no primeiro dia do mandato proporia a revogação de TODOS os penduricalhos, leia-se mordomias, que hoje existem para consumar um circo que custa R$4bi por ano ao país. De sobremesa, uma PEC (proposta de emenda constitucional) para acabar de vez com o Senado. E, por coerência, lutaria para vê-la aprovada, embora sabedor que isto seria muito difícil. Você paga tudo isso achando que seis mil pessoas (sim, 6 mil) estão “trabalhando” para consolidar a democracia e legislando coisas “tão exclusivas” que ninguém mais, além deles, poderia legislar sobre elas. Aponte alguma coisa que o Senado faz que a Câmara dos Deputados não possa fazer ?????
Sábio conselho de um sábio petista.
Certo dia, quando estava exercendo meu mandato de vereador em Porto Alegre, um importante dirigente petista me “informou” que “política não é profissão” (para meu espanto, kkk..) e que eu deveria pensar “em algo” depois de findo o meu mandato, tão passageiro e fugaz. Isso me calhou fundo e sempre me lembro desse paternal “conselho” ao constatar que eu terminei meu mandato, segui por vários caminhos profissionais na iniciativa privada desde então, e o sábio e ilibado petista que me sugeriu esta afável “máxima” permanece até hoje como profissional da política mamando em algum escaninho estatal gaúcho. Faça o que eu digo, mas não faça o que faço. Seria o caso do laureado Sarney? Não, certamente, não seria. Ele dirá: Faça o que eu digo e faça como eu faço, aí você logo chega lá. E prova isso anunciando mais um “sacrifício pessoal” em sua vida, nada diferente de como pensam e agem tantos outros milhares de “políticos profissionais”, sem os quais, afinal, o Brasil poderia vir a ser, quem sabe, um enorme país de merda.
O sacrifício do Sarney é um deboche, um tapa na cara de todas as pessoas que voluntariamente militam em torno das boas causas sociais, que doam suas vidas (as incontáveis horas de sacrifício) na organização, na feitura das ações, dos eventos, nas discussões....miríade de tantas coisas aqui impossíveis de ser retratadas na sua totalidade e multiplicidade. Como comparar o meu sacrifício com o sacrifício do Sarney, ao constatar que milito em causas eco-sociais há 37 anos, meros 37 anos, sempre de forma voluntária, exceção feita ao lapso de quatro aninhos do mandato de vereador em Porto Alegre ????
O que dirá você? Na próxima eleição valorize mais o seu próprio sacrifício em prol das causas pelas quais você milita e o compare àqueles que apregoam um sacrifício qualquer como sendo uma espécie de “ônus da política profissional”. Recomendação de um humilde militante psolista. “Nesse país”, parece que fazer “política” não é coisa para amadores, é coisa para “profissionais”. Eu, “amador”, faço POLÍTICA.
Eco-amplexos convexos, alemão Gert
“In periculum mora”:
TAMBÉM QUERO PASSAPORTE DIPLOMÁTICO JÁ PRA NÃO FICAR EM FILA DE AEROPORTO !!!
In “fumus boni juris”:
QUERO PENSÃO VITALÍCIA JÁ PRA MIM, MEUS PARENTES DE PRIMEIRO, SEGUNDO E TERCEIRO GRAUS, TODAS “EX” E AS ATUAIS TAMBÉM, EMPREGADO(A)S, MOTORISTAS, NORAS, GENROS... E O CACHORRO !!!